[CACOS][CACOS][CACOS][CACOS][CACOS][CACOS][CACOS][CACOS][CACOS][CACOS][CACOS][CACOS][CACOS][CACOS][CACOS][CACOS][CACOS][CACOS][CACOS][CACOS][CACOS][CACOS][CACOS][CACOS][CACOS][CACOS][CACOS][CACOS][CACOS][CACOS][CACOS][CACOS][CACOS][CACOS][CACOS][CACOS][CACOS][CACOS][CACOS][CACOS][CACOS][CACOS][CACOS][CACOS][CACOS][CACOS]
"Ero giá stanco di stare alla bada della Fortuna.
La dea capricciosa dovea pure passar per la mia strada.
E passó, finalmente; ma tignosa.", Pirandello, O Falecido Mattia Pascal
[Já estava cansado de estar a mercê da Sorte.
A deusa caprichosa devia apenas passar pelo meu caminho.
E passou, finalmente; mas tinhosa.]



O Dia das Mães está chegando. No ano passado eu passei pelo shopping pra fazer uma rápida compra de um presente para a minha mãe. Eu sou bem prática com a escolha, mas só pude fazer esta compra no sábado. O estacionamento estava lotado. Dei algumas voltas, e finalmente consegui o lugar desejado, eu passei um pouco pela vaga, somente para facilitar a saída do carro anterior e entrar de ré [economizando ainda mais meu tempo] quando outra mulher coloca seu carro numa posição ainda mais preferencial do que a minha e com isso eu iria perder a vaga.

Essa mulher fingia que não estava me vendo e ignorava todas as indicações que eu tinha dado de que aquela vaga era minha. Eu olhava pra ela e gesticulava e comecei a gritar até que ela me olhou e respondeu:

- DANÇOU!

Ela só não esperava que eu, uma nordestina baixinha, arretada, segura de mim estivesse ali. Sai do meu carro e já chamei pra briga. Mandei a pistoleira abrir a janela, e aprontei o maior escândalo. Foi juntando gente até que chegou o segurança tentando apaziguar a situação.

Eu o escorracei dali pois nem licença para ser segurança esses caras tem e se o objetivo era evitar a confusão ele deveria ter agido antes. E disse mais: se não desaparecesse, depois de acabar com a experta, iria diretamente reclamar com os chefes dele. Segurança fora do jogo. Ponto pra mim. Outra pessoa tenta ajudar [oferecendo outra vaga] e também leva xingos, afinal esse problema já era meu e foi resolvido com toda a minha tinha. [Que mania das pessoas de contornar os problemas ao invés de enfrentá-los].

A mulher desistiu da vaga, piano, piano.


“Sua cabeça era como o barulhento picadeiro de um circo, com passadas de elefantes pesados e desajeitados, palhaços engraçados, trapezistas corajosos e micos amestrados”, Jostein Gaarder, O Mundo de Sofia

 
De uns tempos pra cá tenho tentado praticar a meditação.

Relaxo o corpo e depois começo a relaxar a mente. Silencio o picadeiro do circo. Transformo os elefantes em ratinhos agitados que logo desaparecem dentro de algum buraco. Prendo os palhaços. Amarro, coloco venda e mordaça e jogo em algum canto. Retiro as cordas e os aparelhos dos trapezistas que em geral caem desacordados no chão [alguns conseguem escapar com piruetas pela abertura da lona]. Jogo jatos de água nos micos cada vez que eles se mexem. Num instantezinho também ficam parados em outro canto.

Desmonto a lona. Dobro e guardo tudo. Fica só o descampado verde e o céu azul [como num episódio dos teletubbies]. Depois disso não me lembro de nada. Acho que minha consciência sai do corpo e vai arranjar algo pra fazer.

A parte importante [e estranha] é que no outro dia o circo está lá de pé com cada vez mais atrações.
"A vida é queimar perguntas", Antonin Artaud

Um amigo está pensando em abrir um novo negócio: um SPA de dúvidas.

O SPA ainda não está construído, mas já estamos vendendo os pacotes:

Pacote Spa de 3 dias/ 2 Noites inclui**:
- 2 noites com café da manhã matemático incluído [para o pessoal de exatas há possibilidade de café da manhã literário]
- Tratamento Vip no Quarto: 10 crianças na idade do porquê fornecendo dúvidas e energia para o seu cérebro.
- 1 almoço leve por pessoa [a dúvida será o cardápio... mesmo depois de o prato ser apresentado].
- 1 Passeio filosófico com Sócrates por pessoa (30min.) [um filósofo travestido como o grego Sócrates fará perguntas sobre a vida].
- 1 Ducha Elétrica por pessoa: impulsos elétricos que ativarão as partes adormecidas do seu cérebro.
- Acesso gratuito à biblioteca, ao tradutor alemão, e à sua própria consciência [responsável, esperamos, pela maior quantidade de dúvidas].
- Bebida de Despedida [pra aliviar a dor de cabeça].


** As respostas não estão incluídas no pacote.
"A saúde da casa está nas mãos da cozinheira", Antônio português

 
- Mãe, o papai do céu morreu?
- Não, meu amor, ele mora lá no céu.
- A tia disse que ele morreu.
- Ah, é verdade. Jesus morreu e foi pro céu.
- Com quem o papai do céu é casado?
- A tia te falou que ele é casado?

[SILÊNCIO].

- Se ele não é casado quem é que faz a comida dele?


P.S. Estava sentado num bar tomando uma cervejinha quando ouvi essa frase [a do mote]. Esse senhor Antônio é uma figura. Engraçadíssimo.

 "There's a moment, there's always a moment!, I can do this, I can give into this, or I can resist it?, and I don't know when your moment was, but I bet there was one", Alice, personagem do filme Closer escrito por Patrick Marber
[Há um momento, sempre há um momento! Eu posso fazer isso, posso me entregar a isso ou posso resistir a isso? E eu não sei quando seu momento aconteceu, mas eu aposto que ele aconteceu.]

 


Eu sei que a parte mais importante da traição é negar. Não importa a situação. Não sei, não vi, não fui eu, não estava lá.

Dirão: - Mas eu vi!

Não sei, não vi, não fui eu, não estava lá [e acho até que não aconteceu]. Os políticos sabem usar essa regra como ninguém. Eu não.

Depois que voltei da minha viagem de férias, confessei que tinha beijado outra garota. Eu podia ter resistido, mas a situação aconteceu e não consegui me segurar.

- Ela era mais bonita do que eu?
- Espera eu revelar as fotos daí você mesmo pode ver.

P.S. Consultem o site www.traida.net se [como eu] precisarem melhorar seu desempenho na traição.
[PARA LER NA SEXTA-FEIRA...]

"I love everything about you that hurts", Larry, personagem do filme Closer escrito por Patrick Marber

Desculpem, mas este mini-conto tem que ser romântico.

Conheci Lola na quinta avenida em Nova Iorque em fevereiro de 2005. Atlética e esbelta, bico duro e saliente, assim como seu companheiro Pale Male [literalmente Macho Pálido]. Tenho pra mim que era pálido de tanto amor trocado com Lola.

Eles são um casal de falcões cujo ninho de carícias foi despejado da quinta para o Central Park. Na minha opinião uma mudança pra melhor.

Pale chorava sempre que faziam amor. A dor da entrega misturada com o prazer de estar com a parceira escolhida.

Não sei se o amor por Lola era suficiente para machucar Pale [e por isso o choro], mas é fato que os pombos da quinta machucavam-se, fato atestado pelos moradores que topavam com pedaços de pombos [comidos pelos animais] caídos pelo chão [Ah! por isso é que foram despejados].

 


"Os luxos do século XXI são o tempo, o espaço, o silêncio, a autonomia e a segurança", Domenico de Masi

Microentrevista com JAMANTA BUM

JAMANTA BUM é um ser da constelação de Órion de passagem pela terra.

 


[CACOS] Qual o motivo de sua passagem pela terra?

[J.B.] Estudar os seres-humanos. Entender como essa [falsa] consciência que vocês tem de si mesmos é capaz de iludi-los a ponto de pensarem que estão no controle do instinto, das emoções e até da mente.

[CACOS] De que forma ocorre esta auto-ilusão?

[J.B.] O vocabulário nas línguas de vocês é insuficiente pra explicar, mas posso tentar exemplificar.

Um obeso não é capaz de controlar sua gula, seu excesso de fome, apesar de saber que está acima do peso e de que [mais do que estética] não precisa de mais comida pra se nutrir.

Este mesmo gordo vai a uma clínica de estética para melhorar de aparência e esta nova mudança externa não vai criar a aceitação de si mesmo necessária para o bem-estar.

Daí este ser incompreendido vai buscar uma religião ou um terapeuta e, quando descobrir todo o mecanismo que o levou a comer, vai perceber as milhares de perguntas sem resposta.

[CACOS] Com tudo isso até que evoluímos bastante até aqui.

[J.B.] Tecnologicamente as coisas evoluiram sim. Só que o caráter humano continua o mesmo.
"Pensa como pensam os sábios, mas fala como falam as pessoas simples", Aristóteles

Outro dia estava no ônibus a caminho do trabalho e fui assaltado novamente. Eu entrei no ônibus meio ressabiado [diziam que um assaltante costumava atuar naquele trajeto] e escolhi sentar do lado de uma senhora com uma cara simpática que estava fazendo tricot [ou crochet].

Uma hora o ônibus deu uma freada e eu me assustei. Ainda mais com a senhora encostando a agulha na minha barriga.

- Dá o relógio. [eu dei, né]. Agora desce no próximo ponto.

O ônibus parou e eu praticamente sai correndo dali. Cheguei no trabalho correndo esbaforido. Me contentando de ter perdido somente o relógio.

Aquela senhora anda contando esta estória também.

Na versão dela um negão alto e forte entrou no ônibus. Ela teve certeza que era o assaltante que atuava naquele trajeto do ônibus. E onde é que ele veio sentar? Justamente do meu lado.

De alguma forma ele roubou meu relógio e colocou em seu pulso. Eu fiquei tão nervosa que não aguentei e espetei a minha agulha nele. Fiz ele me devolver o relógio e mandei ele descer do ônibus. Ai, fiquei tão nervosa... ainda bem que não perdi meu relógio.

Aprendi uma técnica pra ficar consciente enquanto estou sonhando

 

"Basta alguém dizer que o pior já passou e ninguém faz questão de verificar", Joana, personagem de Santa Joana dos Matadouros de Bertold Brecht

Teve uma época que eu inventei que se piscasse os olhos eu podia matar qualquer pessoa. Era como a feiticeira [Samantha] com o nariz. Eu apontava pra pessoa, pensava algo do tipo: [Você vai morrer, desgraçado!] e piscava.

Era uma beleza. Matava até dez pessoas por dia. [Eu precisei estabelecer uma cota, senão matava as pessoas por qualquer coisinha]. No trânsito eu matava muita gente. No noticiário também. Minha mãe, então, matei muitas vezes [e olhe que é uma velhinha adorável].

Depois de um tempo matando as pessoas próximas e aquelas que a gente vê pela TV, pensei em virar espião americano e salvar o mundo. Mas com quem eu iria falar? Já tinha matado o Bush há tanto tempo...

"O que o cinema pode nos dizer em imagens, nunca tem a mesma riqueza de significados da narrativa literária", o fescenino no Diário de um fescenino de Rubem Fonseca

De uns tempos pra cá eu tenho conseguido ver as auras das pessoas. Não tem nada de complicado... basta eu me concentrar um pouco e BUM!... as pessoas ficam com um campo colorido envolta.

No começo eu me assustava um pouco. Não com auras escuras pois elas são meio apagadas, e sim com um povo que parece soltar fogos de artifício pela pele. Uma envolta de cores e formas [dá até medo de chegar perto, ainda que seja bonito demais de se ver].

 
Depois fui me acostumando. [Será?].

Agora vejo as auras até quando estou vendo filmes. De vez em quando me atrapalha o entendimento, pois a aura de alguns atores não acompanha o sentimento da personagem. Mas é um sentido a mais tentando encontrar a [tal] riqueza de significados.

Confúcio afirmava "o importante era desenvolver caráter e humanidade, antes de acumular conhecimento ou desenvolver técnicas" [ele também é conhecido por Kung Fu Tzu]

Eu sempre soube dizer não. A maioria das pessoas tem problemas com isso. Eu não [e sem nenhuma culpa].

- Pode me emprestar dinheiro?
- Não.

- Vamos no show do Djavan?
- Não.

- Você vai precisar do carro hoje?
- Não vou emprestar.

- Você me leva, então?
- Hummm... não.

O que ainda estou aprendendo é a insistir. Não importa quantos nãos apareçam.

P.S. Se Confúcio soubesse que a prioridade da lista passou a ser acumular bens materiais e aparecer nas revistas... Ai, Ai, Ai.
"Com o sobrenatural explicado o verdadeiro medo desapareceu da Terra", Noemi Moritz Com

Ana Carolina tinha duas personalidades. Uma era a Ana Carolina mesmo. A outra era a Ana Carlota da Boca Torta. A grande vantagem da Ana Carlota sobre a Ana Carolina era o fato de que a Carlota podia fazer tudo o que a Carolina não podia fazer. E pra uma garota de 8 anos [e meio] era muita coisa. A grande desvantagem era a Boca Torta.

Ana Carlota era de certa forma sobrenatural [a avó morria de medo], mas hoje em dia cada um tem sua explicação.

Um psiquiatra diria que é dupla personalidade.

Uma psicóloga diria que ela está tentando expressar seu eu-mesmo.

Um espiritualista diria que é um obsessor.

O padre Bento queria era exorcizar a menina com a ajuda da avó.

Mas a mãe dela sabia que era tudo embuste e colocou a Ana Carolina de castigo [não teve boca torta que ajudasse].

 
"Felicidade é perfume, você não consegue perfurmar ninguém sem derrubar um pouco em si mesmo", Desconhecido [pelo menos pra mim]

Tem muita coisa pra fazer num cemitério. No começo eu ia pra ajudar minhas tias na limpeza do túmulo da família [muito bom sapatear com sabão em cima do túmulo - pena que tinha que fingir que não estava me divertindo].

Gosto também de ir andando pelas alamedas. Verificar que túmulo tem mais flores. Ver quantas pessoas tem em cada túmulo. Com que idade as pessoas morreram. E adoro ver as fotos. Túmulo precisa de fotos. Daí a gente pode ver a cara da família. Comparar os tamanhos de nariz e orelha.

Outro dia eu estava num deles e uma multidão estava no cemitério. A mulher que faleceu devia ser muito querida. Um cheiro fortíssimo impregnava ali. Eu achei que fosse o cheiro de morte [apesar de ser bom].

Conversando com as pessoas descobri que a mulher foi enterrada com uma coleção de perfumes e incensos que seus convidados trouxeram. Devia ser para uma passagem tranquila.

Ah, adoro cemitérios. Vou regularmente.

"O que faz a gente sofrer não são as outras pessoas, mas sim o olhar que temos sobre as outras pessoas", infelizmente não sei de quem é...[alguém se habilita?]

Adoro mergulhar e nadar. Quando a gente está embaixo d'água e olha pra cima a refração faz a gente ver tudo diferente. O Sol e as nuvens se mexem com o movimento e parecem próximos [ao alcance da mão].

Me lembra aqueles filmes em terceira dimensão em que a gente pensa que pode tocar os personagens, as pessoas e fazer parte do filme [se bem que eu sempre faço parte].

Me lembra também que é tudo uma experiência.

Será que todo momento que a gente ama uma pessoa o gosto é sempre o mesmo? Eu continuo testando...

"Eu amo tudo que foi
Tudo o que já não é
A dor que já não me dói
E o que me deixou alegria
Eu amo tudo o que foi
E hoje já é outro dia!", Fernando Pessoa


Meu nono e minha nona moram sozinhos.

Eles são adoráveis. Minha nona ama fazer doces de frutas, aquelas compotas de figo e de laranja. Gosta de ir a missa aos domingos e quando está com raiva segura o único dentinho pra fora na boca ouriçando o nariz.

Meu nono ama beliscar o bumbum da nona [o que faz ela segurar o dentinho], gosta de pescar com os amigos e quando está com raiva coloca a mão no peito e respira ofegante [ninguém nem liga mais].

A nona e o nono dormem em quartos separados. Todo dia pela manhã a nona se levanta e vai ao quarto do nono verificar se ele morreu.

"Há pessoas que transformam o Sol numa simples mancha amarela, mas há aqueles que transformam uma simples mancha amarela o próprio Sol", Pablo Picasso

Quando fui operar meus olhos eu não perdi nada. Santa consciência.

O médico pegou a metade de uma bolinha de ping-pong e enfiou no meu olho. Acho que era pra prender o globo. Depois disso pingou um colírio e mandou eu olhar pra uma luzinha [o tal do laser].

Foi demais. Via a luzinha vermelha passeando... escrevendo um gráfico 3D na minha frente.

Depois foi no outro olho. Mesmo procedimento [do médico]. Já eu quis me divertir mais. Quis olhar pra tudo que eu podia.

Na hora que tirei o foco da luz vermelha ela se apagou...

O médico parou tudo me deu uma bronca. Disse que eu tinha que olhar a luzinha senão corria o risco de ficar cego. Achei melhor seguir o conselho e manter meu olho pra novas experiências.

"Os limites do seu mundo são os limites da sua linguagem", Wittgenstein

Beatriz tem 6 anos [vai fazer 7]. Uma garota supercriativa [me parece que ás vezes ela até esquece a idade que tem]. Ela me ligou perguntando se eu podia ajudá-la a escrever um roteiro pra televisão. Não é que não esteja satisfeita com o que tem se produzido hoje em dia, mas como já disse ela é cri-ativa.

Claro que eu disse que poderia ajudar. Perguntei se ela já sabia sobre o que gostaria de escrever.

- Sobre a fada Máboa. A fada Máboa é má durante o dia e boa durante a noite.

- Que excelente idéia! Pra estória ficar divertida, ela precisa ter um conflito. A fada Má-Boa tem que lutar por alguma coisa.

- Tio! O nome da fada é Máboa.

E ali tivemos nosso primeiro conflito.

Enquanto ela escrevia sobre a Máboa eu escrevia sobre a Bia-Maria.

"Cego é quem só vê aonde a vista alcança,
Mudo é quem só se comunica por palavras" por Candeias, o tal do samba


Outro dia chegando em casa fiquei observando uma mulher velhinha, pequenina. Ela estava
mal-vestida, o cabelo parecia sujo. Estava parada como se olhasse o tempo. Fui oferecer ajuda, ver se ela queria algo pra comer.

Ela me olhou com uma cara. Me intimou. Perguntou se tinha pedido algo pra mim. Se tinha estendido a mão. Se me olhou com aquela cara triste de pedinte. Se tinha cara de mendiga.

Minha vontade era dizer que sim. Só não fiquei mudo porque minha expressão deixava claras tanto minha surpresa quanto minha vergonha.

Ela me descascou ali... e o pior é que tinha razão. Esse marketing pesado que a gente hospeda todo dia ás vezes faz estragos.

Ainda assim foi bom lembrar que posso me vestir como quiser, deixar de lavar os cabelos, andar descalço na rua, fazer uma bela careta pra todos, comer manga com as mãos [daquele jeito que a mão-cara-boca ficam amarelos e os dentes cheios de fiapinhos - pelo amor de Deus com fio dental depois, ao menos pra mim].

E dar um pito em quem vier me oferecer ajuda.
“É preciso ter dúvidas. Só os estúpidos têm uma confiança absoluta em si mesmos”, Orson Welles

Eu nunca acredito nas pessoas. Sempre peço uma segunda opinião e confiro o que me disseram.

Quando era criança fiz a pergunta básica:

- De onde vem os bebês?

Minha mãe [pedagoga de formação] obviamente explicou tudo:

- O pai coloca uma sementinha na mãe e o bebê vai crescendo dentro dela.

Eu, que já não era estúpido, fui confirmar com minha tia [a professora de primeira série] se era verdade. É claro que não expliquei que estava desconfiado [afinal, uma sementinha... por acaso eu nasci verde??], simplesmente refiz a mesma pergunta:

- De onde vem os bebês?

A tia fez uma cara engraçada [eu tinha seis anos na época] deu o sorriso amarelo e disse que ia pesquisar [naquela época os professores já usavam essa desculpa].

Muito tempo depois fiquei sabendo que ela foi confirmar com a minha mãe se podia contar isso pra mim [ou combinar pra dar a mesma resposta - mães e tias tem um pacto fortíssimo ainda que disputando o mesmo homenzinho].

Hoje em dia to querendo saber o que é que a gente veio fazer nesse planetinha?

Pra quem será que eu pergunto?

Porque cada pessoa estará dotada de uma consciência?”, Henry David Thoreau

 

Aprendi uma técnica pra ficar consciente enquanto estou sonhando. A técnica é assim: durante o meu dia-a-dia, se percebo algo estranho, algo que não faça sentido eu me pergunto: “Será que estou sonhando?” e [e este e é o mais difícil] dou alguns pulinhos tentando voar. Se eu conseguir voar é porque estou sonhando [a menos de algum dom ainda não descoberto]. E se estiver sonhando ficarei consciente...


A técnica ainda não deu resultado, mas outro dia no supermercado, uma morena deslumbrante começou a colocar coisas no meu carrinho. AHÁ! Era o tipo de situação que eu estava procurando. Fui lá e dei os tais pulinhos. A morena me olhou com uma cara estranha, colocou o que tinha nas mãos de volta na prateleira deu um sorriso amarelo e saiu.

Cada vez que a gente se encontrava eu enfiava o rosto dentro da prateleira mais próxima. E ela passava ainda mais rapidamente.

Podia ter falado de São Longuinho [Porque a gente sempre pensa na melhor saída de-pois?].

Desde então peço licença e dou os pulinhos num lugar discreto.




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